sábado, 25 de fevereiro de 2017

Rodrigo Pereira


É quase inevitável que, hora ou outra, nos interessemos por alguém que nos cruza o caminho de vida. Alguém que desperte em nós, sensações até então pouco conhecidas. Alguém que, aos nossos olhos, pareça ser tudo àquilo que queríamos enxergar, alguém que pareça ter tudo, conosco, a ver . Alguém que com afeto, a nós, dirija um dizer, e que com esse nos cause um encanto instantâneo, que acenda uma pequena chama em nosso desejo adormecido de viver. Dessa forma, torna-se tão inevitável quanto se interessar por um alguém, o fato de que entremos também em relacionamentos amorosos em algum momento de nossa existência. Os relacionamentos que tanto nos irão ensinar a amadurecer, se com eles nos permitirmos aprender.

Quando nos apaixonamos por alguém, inevitavelmente, sentimo-nos encantados por essa pessoa. Todo o sentido da vida parece alterado nesse momento, nossa percepção mental, nossas sensações corporais e nossas vivências cotidianas parecem mais límpidas e tudo ao nosso redor parece estar um pouco diferente do que sempre estivera. É assim com todos nós. Nossa mente, ativada em suas sensações de prazer e recompensa, abastecida quimicamente pelo contato, deseja se apegar ao que está sentindo naquele momento, deseja se agarrar aquele estado mental incrível de forma recorrente, e entende querer viver em sua função e assim senti-lo para sempre. Esse apego passa a ser investido massivamente nessa nova relação que se inicia, e em poucos encontros já nos percebemos vinculados ao outro como nunca antes estivéramos: repletos de uma sensação de completude, segurança e satisfação, que é realmente muito deliciosa de se sentir. Naturalmente, aos poucos, nossa mente, vai se apegando áquele objeto de nosso encantamento, e criando um padrão de sensações mentais e físicas, emoções e pensamentos vividos a partir da relação que temos com esse. É praticamente inevitável que isso aconteça, e que bom que é assim, porque realmente a paixão e o desejo são experiências incríveis, que todos merecem sentir em suas vidas pelo menos uma vez.
Gostamos tanto do prazer e da recompensa que sentimos, quando estamos apaixonados, que não precisamos de tempo para achar que estamos amando, de que estamos felizes para sempre. Entendemos que estamos amando o outro quando desejamos seu corpo, quando apreciamos sua inteligência, sua jovialidade, seu jeito. Mas, que parte dele estamos realmente vendo? Nenhuma ainda, pois, perceba que nele estamos vendo a nós mesmos - auto centrados em nossas sensações, percepções e acontecimentos internos que são despertados - usamos o outro para nossa satisfação pessoal, usufruto do nosso desejo. Você chamaria isso de ato de amor ou de egoísmo? Nosso bem estar egóico, frágil feito vidro, baseia-se apenas nas nossas próprias percepções e reações egoístas catalogadas em boas ou ruins. E por isso julgamos o todo dessa maneira fragmentada. Assim, faço que o mundo lá fora se torne o inferno  que sinto por dentro, e por isso sofro em meus relacionamentos.

Mediante a tudo isso, sempre digo aos meus pacientes: que no amor verdadeiro, há muito mais amizade e companheirismo do que paixão e desejo (embora esses também existam). Mas, quem de nós está realmente disposto a investir no que se irá colher lá na frente e ainda sim sem nenhuma garantia disso?  Investir tempo em cultivá-lo vagarosamente para senti-lo para além da mente. Quantos de nós, nos arriscaremos a viver um amor genuíno?

Se você sente que já encontrou a pessoa certa para correr esse risco, comece desde agora seu cultivo. Aos poucos, torne-se um bom amigo, a presença acolhedora de seu companheirismo, a paz tranquilizante para o inferno de sua mente temerária. Invista na essência de seu relacionamento. Cultive, com muita calma e sabedoria, as sementes do amor, pois, se um dia você quis ter ao seu lado durante toda a vida um alguém para viver um relacionamento verdadeiro, sem o escravizar, ou ser desse um escravo; saiba que o amor é a única semente da qual nascerá uma bela árvore, cujo os frutos serão capazes de manter unidas até o fim, duas, ou mais pessoas dispostas a amar. Quando não restar mais nada, nada que possa ser útil, que possa preencher o seu ego de prazer e segurança, nada que possa mais te satisfazer, mas, que ainda sim te satisfaça por ser exatamente como é, você terá encontrado o amor. Quando dele não mais depender.



O amor é sim uma bela árvore, talvez a mais bela dentre todas, mas, sua natureza leva mais tempo para nascer e crescer do que as outras.


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