Eu sei que dói.
Há momentos em que a alma é demasiadamente grande para caber no nosso corpo e o mundo parece pequeno demais.
É então que nos vem uma ânsia de voar, de sonhar que bastaria abrir a janela, abrir os abraços e levantar voo para longe de tudo e de todos.
Nascer de novo e ser diferente e ser igual e sonhar como da primeira vez, saborear a paixão como da primeira vez, sentir o medo na boca do estômago pela primeira vez e pela primeira vez transformá-lo em nada mais que uma formiga espalmada no chão.
Eu sei que dói.
Que muitas e muitas vezes gostaríamos de acordar exactamente igual a todos. Aqueles que nos rodeiam e levam a vida como é suposto, sem almejar por castelos para conquistar nem aventuras maravilhosas à porta de casa.
Os dias nunca são iguais. Às vezes a dor no peito é que é igual e precisamos rapidamente de sentir o ar no rosto, sentir o cheiro da chuva e abrir a porta e sair sem destino.
Temos longas batalhas dentro de nós. O cérebro que nunca consegue pensar numa só coisa, o corpo que não se satisfaz enquanto não esgotamos toda e qualquer energia, para fazer nascer outra e outra.
Temos medos que os outros não conhecem porque nunca acreditaram em dragões, nem cavalos alados, nem em céus vermelhos de sangue com nuvens de todas as cores do arco-íris.
Eu sei que dói.
Dói de cada vez que nos apaixonamos por um projecto, por um sonho impossível, por um objectivo, por alguém e depois, muito antes de toda a gente, já o imaginámos, já o concretizámos e de repente o que era urgente e fundamental e o mais importante do mundo torna-se assunto resolvido, passado, algo sem interesse.
Claro que os outros têm tudo o resto. O sossego do corpo, da alma e do coração, dos músculos e sonos profundos sem pesadelos e passeios perdidos entre labirintos.
Claro que os outros têm tantas coisas e contudo parecem-nos de um vazio total.
É tão difícil encontrar alguém que tenha interesse por mais de meia hora, que tenha conversa ou ideias ou apenas loucuras de visionário.
Se tivéssemos nascido há séculos atrás, partiríamos a explorar o Pólo Norte, o deserto mais longínquo onde, temos a certeza absoluta, iríamos encontrar o Principezinho com a sua rosa.
Agora, que acabaram as caravelas, as cruzadas e os moinhos de vento, cabe-nos inventar tudo de novo, com outros nomes e outras formas mas sabendo nós que tudo já foi inventado, todos os grandes livros já foram escritos, os grandes filmes realizados e só nos resta fingir que todos os dias partimos montados em cavalos alados, galgando as colinas de Lisboa e aterrando em planetas sem nome ou apenas no outro lado da rua, tanto faz.
Eu sei que dói porque nunca nada é tão grande, nem tão forte, nem tão duradouro quanto sonhámos.
Apenas o medo. Apenas a tristeza de sermos estrangeiros onde quer que estejamos, seja com quem for que estejamos.
É tudo uma questão de tempo até o tempo nos pesar demais, até qualquer pessoa, seja ela quem for, se tornar pesada demais para ocupar o ar que respiramos.
Vivemos meio-dia em pleno Verão, beijados por um sol que nos aquece o sangue e nos dá uma força de vida inacreditável para os outros, e de repente sem aviso, sem nada, a luz desaparece e fica noite sem luar, e a tristeza instala-se até nos fazer doer os ossos, e as lágrimas não são lágrimas mas farpas que atiramos a alguém, seja quem for.
Contudo, nós amamos total e incondicionalmente.
Durante o tempo que dura e que não sabemos medir e explicar, amamos e queremos fazer rir a quem amamos, quereremos dar-lhe o mundo numa caixa de chocolates e numa mão cheia de estrelas.
No dia em que acordamos e descobrimos que já partimos e não sabíamos, que apenas o nosso corpo, qual carcaça sem préstimo para ali está, nesse dia e uma vez mais, o lado negro da noite sem luar toma conta de nós e mais nada há a fazer.
Eu sei que dói.
Porque a vida parece começar depressa mas não é verdade. Quando damos por nós e somos adultos, aí sim, os dias deixam de ter vinte e quatro horas e falta-nos fazer tanto, não sabemos o quê, nem onde, mas sabemos que há uma porta à nossa espera, uma fresta escondida por onde vamos fugir para sempre, nem que seja só até amanhã.
Eu sei que dói mas é assim e não vale a pena tentar que seja diferente.
Digo-te eu que tentei ser a menina exemplar, a mulher exemplar e um dia abri os braços e voei, mesmo que ninguém tenha sabido, aterrei com o corpo no chão e nunca fiz mais nada até hoje senão levantar-me e tornar a cair e tornar a levantar-me.
A vida é um mistério tão maravilhoso que a maior parte das vezes nos confunde, nos embriaga ou nos deixa de rastos, não sei explicar porquê, mas é assim.
Eu sei que dói mas os outros têm outras dores.
Os outros, todos os outros com quem fazemos um esforço para lidar, para criar laços, para estabelecer pontes e contudo estamos sempre sozinhos, nós e a nossa cabeça que não pára de sonhar, de rodar e rodopiar.
Como dizia Pessoa, o melhor do mundo são as crianças.
E a criança que há em nós não cresce nunca, não deixa nunca de ser o menino com medo do escuro e vontade de espreitar o que está para lá do muro.
Mas é essa eterna criança que nos levará ao colo a vida toda e nos permitirá fazer grandes coisas.
Grandes feitos, grandes sofrimentos, grandes desilusões, grandes culpas.
Eu sei que dói mas acredita, não querias ser como todos os outros porque tudo o que ainda vais viver é incomensuravelmente maior do que eles podem sequer imaginar.
Nunca mintas. Nunca deixes de sonhar e nunca te esqueças que a única coisa verdadeira nesta vida, neste planeta, neste momento exacto da história do universo é a carne da tua carne.
Tudo o resto é passageiro, quimeras e fumos de queimadas de Verão.
A razão de termos vindo aqui é essa. A de olhar para um ser que concebemos e perceber a dimensão desse amor.
Eu sei que vai doer a vida inteira. Porque o amor verdadeiro é este e por isso é como uma parte do nosso corpo que nos é retirada e vive fora de nós.
Somos livres de tudo e para sempre, exceptuando deste amor infinito!
Luísa Castel-Branco
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
domingo, 14 de agosto de 2016
Esse tempo é agora
Colo espírito e alma a cada passo que dou, dou muito de
mim. O que mais me surpreende na vida é que todo o tempo, a toda a hora é
tempo de aprendizagem. A toda a hora o nosso verbo aprender evolui. Nunca devemos ser o que são para nós.
Devemos ser sempre melhores, sempre dar mais, por muito que sabemos que não é
justo, acredito muito que há sempre alguém a
ver e que sentimos bem a dar, mesmo sem receber, saber que fiz o bem nem
que seja por um momento já é motivo para a minha boa disposição.
Aprendemos com a vida
que a felicidade se encontra nas coisas pequenas da vida e damos tanto valor a
isso que as grandes passam ao lado. As pessoas são a essência da vida. São o que
nos move. O que nos alimenta .O que nos dá vontade de fazer mesmo o que a gente
não goste. O que nos dá vontade de passar horas a ouvir. O que nos faz
aprender. Aprender a lidar com uns e viver sem outros. As pessoas são o ensinamento das outras. Vejo nos outros o que gostava de ser daqui a una anos.
Como a minha vida fosse. Talvez algumas dessas pessoas me tenham ensinado a
não ter medo. Nem da vida, nem da solidão. Não há tempo para isso. Não vamos
perder tempo com coisas que não se expliquem. O mundo ensina-nos que tem tudo
para andarmos sempre com um sorriso no rosto. O destino mostra que há vida a
cada conversa, a cada olhar, mostra-nos sem receio que nada e repito nada é por
acaso. Tudo se explica, agora ou daqui a quarenta anos a razão vem ter
connosco e reparem é sempre quando menos esperamos...
O que se aprende com
a vida não saí em letras, fica dentro , fica na maneira como vemos a vida.
Aprendemos a brincar com situações que nos fizeram chorar. Vemos que a pessoa A
não é igual á pessoa B e não devemos nunca generalizar a humanidade.
É bom voltar a ver o
sol depois de tanto tempo nublado. É bom rir sem motivo aparente e acordar cheia
de vontade de viver mais um dia e aproveita-lo ao máximo. Só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora.
não desapareças, pode ser?
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
Buda
Existem três classes de pessoas que são infelizes: a que não sabe e não pergunta, a que sabe e não ensina e a que ensina e não faz.
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