domingo, 26 de março de 2017

quinta-feira, 23 de março de 2017

quarta-feira, 15 de março de 2017

Rodrigo Pereira

Não faça nada agora

Há sete anos, eu estava me formando Psicólogo. Jovem e inseguro, na ocasião, fui perguntar a um professor muito querido o que deveria fazer enquanto Psicólogo, quando não soubesse o que fazer diante de uma pessoa a qual deveria ajudar em um momento específico de sua vida, cujo essa também não sabia o que fazer. Meu professor, um homem bastante calmo e vivido, colocou as mãos no meu ombro, abriu um sorriso: “ – não faça nada, oras“. Sem entender o que ele quis dizer, franzi a testa: “ – como assim, professor, nada? “. Calmamente, o velho professor prosseguiu, percebendo a minha angústia, a qual ele não tiraria de mim naquele dia, a qual carregaria em minha vida por longos anos ainda: “ - Se não souber o que fazer em algum momento, é porque não é para fazer nele nada ainda. Um dia você irá entender ”. Naquela época, confesso que não pude realmente compreender o que ele talvez estivesse querendo me dizer. Era inimaginável que eu não fizesse nada para ajudar uma pessoa que viesse até mim e precisasse de minha ajuda só porque eu não sabia o que fazer - era meu dever ajudá-la e tinha que estar preparado para tudo. Nessa época, li tantos livros, artigos, fiz cursos para me preparar muito bem, fiz terapia.  Tudo para ser um Psicólogo seguro e assertivo. Tratei de conhecer bem as teorias, para que quando surgisse alguém com uma queixa, pudesse prontamente a sanar.

Alguns anos depois desse dia, já formado, a vida me colocou diante desse alguém, na fala angustiada de diversas pessoas que recebia para atendimento diariamente em meu trabalho. Todo meu preparo havia ido água abaixo, eu estava desprotegido e obviamente inseguro. A sensação de desproteção sempre foi difícil pra mim e até hoje sofro um pouco com isso. Em um dado momento, eu realmente não soube o que fazer diante dessas pessoas que estavam desesperadas diante de mim. Senti que estava no limite do que sabia e só podia ir até alí. Parecia que não sabia realmente  mais para onde ir, pra onde correr. Na hora, lembrei da voz de meu professor dizendo que não devia fazer nada e esperar quando não soubesse o que fazer, e então segui seu conselho. Nada fiz, mesmo angustiado pela necessidade do ego de fazer algo. Permaneci em silêncio diante do que esbravejavam aquelas pessoas angustiadas e me concentrei apenas em ouví-las. Como era difícil fazer isso para mim. Percebi que elas esperavam algo de mim, mas, embora soubesse algumas  teorias, não sabia o que as podia dar para que saíssem de lá melhor do que haviam entrado. Algumas me questionavam sobre o que deveriam fazer, outras se sentiam aliviadas por poderem falar, todas esperavam que eu resolvesse seus problemas de alguma forma. O silêncio de ouvir diante do que todas essas pessoas me falavam, foi um verdadeiro divisor de águas em minha prática profissional e em minha vida, e me fez, dia após dia, compreender o que meu professor queria dizer. Mas, pra chegar até aí, tive que ver muitas das verdades de meu ego caírem, uma a uma. Tive que passar longas noites sem dormir, longos períodos sem perceber que estava metamorfoseando para renascer melhor. Ainda hoje, vez ou outra, tenho noites sem dormir. A metamorfose existe enquanto existe vida.

A primeira coisa que ouvir as pessoas sem as precisar nada dizer me ensinou, foi que, nem sempre eu as teria o que dizer. Afinal, a resposta não estava em mim, sequer eu havia formulado a pergunta que tanto as angustiava. A segunda coisa foi, que nem sempre eu as precisaria algo dizer, mas, muitas vezes, apenas saber como as escutar enquanto elas mesmas se diziam o que precisavam ouvir. A terceira, que tudo o que seria necessário para o despertar da pessoa, já estava,  de certa forma, alí, ela só não conseguia ainda perceber.

Durante todos esses anos atuando como Psicólogo, pude ouvir muitas histórias, conhecer muitas pessoas, e percebi, com o tempo, que havia algo em comum em quase todas elas, e também em mim. Percebi que praticamente todas essas pessoas, e também eu, sofríamos por motivos diferentes, mas, basicamente de mesmo sentido. O que as fazia tanto sofrer, era uma necessidade que tinham de se agarrar as coisas, de querer controlar tudo ao seus arredores, de fazer sempre alguma coisa diante do que as acontecia, uma necessidade de mudar alguma coisa de lugar ao invés de aceitá-la alí onde estava e como estava. A necessidade de sempre ter que fazer algo e julgá-lo a seguir como bom ou ruim, a necessidade de querer possuir alguma coisa ou alguém que sentisse como seu. O medo de os perder. As pessoas faziam tudo isso, mas, não percebiam como isso as faziam sofrer.

No fundo, pude perceber que eu padecia pelas mesmas coisas que todas essas pessoas, fazia o mesmo em minha vida, mesmo que de forma diferente. Queria ser feliz, mas, que só seria se fosse do meu jeito, do jeito que eu queria, do jeito que desejava minha mente perfeccionista e egoísta. Que só encontraria minha paz, quando me desencontrasse do meu sofrimento e tivesse tudo o que julgava ser bom pra mim. Eu não podia, na época, ver que o meu sofrimento era parte fundamental do próprio caminho até a felicidade que tanto queria, que jamais seria feliz do jeito que imaginava ser a felicidade, que minha dor também fazia parte da minha alegria, que a vida estava querendo me dizer que ainda teria noites nas quais a ansiedade me visitaria ao invés do sono, que a dor reapareceria mais forte ainda enquanto dela eu imaginava ter me livrado. A vida me dizia: “- Não adianta se agarrar ao que foi feito para não se ter, cedo ou tarde, terá que o soltar, ou vida virá o tirar de você.  Se não o fizer, jamais deixará de sofrer. Não adianta querer se explicar, a resposta não está em como pensa você. Isso causará ainda mais ansiedade em seu viver “. As pessoas que até mim vinham, também não podiam ver isso em suas vidas, estavam inconscientes, mas, sem saber, estavam me ensinando isso – que a dor que tanto sentiam era uma ilusão que só as queria despertar para a vida que podiam ter se capazes fossem de abrir mão da vida que se fizeram acreditar ser a  melhor para si mesmas; essencialmente a dor tinha algo importante para mostrar, queria que essas pessoas compreendessem o que tanto as faziam sofrer, que mudassem de atitude e não de vida, que mudassem de olhar e não apenas de lentes.

Por meio das dores dessas pessoas, dos ensinamentos que delas eu havia obtido, e das minhas próprias dores, pude, enfim perceber que na frase que havia dito meu querido professor, havia um real sentido para tudo: eu realmente não tinha nada o que fazer, se não  apenas esperar, se não apenas aquela dor horrível acolher e a compreender. Não havia nada que eu pudesse fazer para me acordar se eu não percebesse sozinho que estava ainda dormindo em expectativas irreais. Não havia como acordar o outro somente pelo meu desejo de o acordar, e que inclusive isso, poderia o atrapalhar ainda mais em seu despertar se ele não estivesse preparado para acordar.

Uma das primeiras perguntas que as pessoas me faziam logo após me contarem suas dores era o que deviam no momento seguinte fazer. “O que eu faço agora?” Ouvindo-as dizer isso, paralisadas em seus medos, percebi que elas partiam da lógica de que tinham sempre que algo fazer, embora não soubessem o que. Todavia, notei que, para muitas dessas coisas, elas realmente não tinham nada o que fazer, se não apenas esperar, ou aceitar os fatos. Aí estavam suas dores e as minhas próprias. Foi quando enfim as localizei. Estava nítido pra mim que o que me fazia tanto sofrer era o fato que eu queria a tudo em minha vida me agarrar, queria controlar e fazer ser do meu jeito o que jamais seria. Que diante de tudo que acontecia, minha mente dizia que eu tinha que agir.  Isso me trazia sofrer mais do que qualquer coisa que acontecia fora de mim. Minha razão queria me dizer o que era certo, enquanto a vida me ensinava a errar.

Passei a compreender e a dizer a mim mesmo que não havia nada que eu pudesse fazer em minha vida para ser mais feliz do que por hora poderia ser, não havia o que fazer para que eu pudesse ser menos medroso, senão apenas ser menos egoísta e compreender que eu já tinha tudo o que precisava para viver.

Passei então  um pouco mais a permitir-me, sendo eu mesmo um medroso, viver. Desse modo, senti, uma a uma, todas as minhas resistências caindo - enquanto meus medos iam e vinham os pude compreender. Senti a paz que nascia dentro de mim nos momentos em que eu me permitia não interferir em minha vida, no que acontecia diante dos olhos de meu ego faminto, nos momentos em que não tinha medo. Notei claramente que quando eu não sentia medo, era porque, de alguma forma, minha mente não estava alí. As âncoras todas afundando pude ver, e não tive medo de as perder porque delas não mais dependia, pois não ia atracar. Mas, às vezes elas voltavam pra me ver e me querer afundar enquanto navegava.

E foi desde então que levei para mim que não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer para mudar a vida das pessoas, e nem a minha. Não apenas pelo conhecimento que tinha. De que eu apenas as emprestaria meus ouvidos e meu coração para que essas pessoas pudessem ouvir a si mesmas e sentir os seus próprios medos, para que pudessem, sozinhas, de todos eles despertarem, como comigo, sem perceber, elas haviam feito um dia. Percebi que para que pudesse ser um Psicólogo, teria que, enquanto estivesse escutando as pessoas, abrir mão de mim.

Pude perceber que a vida apenas acontecia e que o sofrimento do meu ego estava na administração desses acontecimentos. A cada nova situação podia perceber o meu ego aflito com medo de ser julgado por mim mesmo e pelos outros, querendo abrigo em alguma verdade, essa que escolhi não mais o dar. Não foi fácil, na verdade, ainda é muito difícil. Havia medo de não conseguir, raiva por não me empenhar, inveja por ver o outro em frente ir, angústia de ver minha dor me fazer ficar. Eu estava inconsciente do amor e inundado pelo medo de amar. Foi bem difícil tirar os alimentos do ego o suficiente para que pudesse da necessidade dele, aos trancos  e barrancos, despertar. O ego não deixa nunca de existir, e isso hoje consigo compreender, ele se desespera a cada nova coisa que parece sair fora do lugar. O desespero do ego nos causa no corpo, medo, angústia, dor. Mas, isso não vejo como ruim porque são esses sentimentos que nos levam da escravidão imposta pelo ego poder despertar. Também nos pode ajudar o ego, pois, sem ele não haveria o pensamento;  cabe-nos apenas tornarmos conscientes dele e aprendermos com ele a lidar (uma tarefa árdua e diária) . Imaginemos, no parágrafo a seguir, a seguinte situação:

Você está andando por um lugar tranquilo e vazio, praticamente desértico. Você caminha horas a fio e no horizonte só enxerga mais chão pra pisar. Está um dia aberto e o sol aquece seu corpo. De repente, arma-se uma tremenda tempestade sobre você, o céu antes límpido escurece rapidamente, e, inevitavelmente, uma chuva forte, cheia de raios e trovões, começa a cair sobre você. Você e seu ego automaticamente olham pros lados afim de encontrar um abrigo para os proteger até a tempestade passar, estão acostumados a fazer isso toda vez que ameaça chover. É uma maneira de se sentir protegido, ok! Mas, dessa vez não há onde se esconder, não há lugar para se abrigar. Tudo ao seu redor  é um interminável vazio desértico. Após muitos medo e luta, você percebe que terá que aceitar que choverá forte sobre você e que deve então continuar caminhando embaixo daquela tempestade assustadora até que ela comece por si só a passar. Já não depende só de você. Você percebe que não há o que fazer naquele momento e então se rende a não fazer nada se não apenas caminhar.

Conforme ela vai passando, após ter sido extremamente forte e assustadora, você se dá conta de que andou bastante, pois tinha medo de ficar parado embaixo daquela forte tempestade, percebe como ela foi importante pra você, e dos benefícios dela durante a travessia, percebe os benefícios do seu próprio medo. Você percebe que assim como o sol que antes fazia, a tempestade era também tão natural. Você nota ela ter refrescado seu corpo e tornado seu caminho menos cansativo, de ter matado sua sede e te ensinado a ter mais coragem diante da vida. A tempestade trouxe o reequilíbrio aquele ambiente altamente aquecido e sua passagem te ensinou o valor de sempre continuar.

Com isso, quero que observe que durante a tempestade, por não ter para onde correr, precisou ficar embaixo dela até que ela pudesse passar. Não foi agradável, mas, necessário. Você não teve escolha se não a continuar caminhar. E como caminhou. Será, que como nesse exemplo, em nossas vidas, muitas vezes também o precisamos fazer? Precisamos permanecer embaixo da forte tempestade emocional que cai sobre nosso ego, hora ou outra, sem procurarmos lugares para nos abrigar e continuar caminhando. Precisamos ficar sem escolhas e então sofrer um sono cheio de pesadelos para desse nos acordarmos sendo outros. Se enquanto chove forte sobre nós, optamos por não mais proteger nossos medos egóicos, o que então acontecerão com eles com o passar do tempo?

Você está realmente disposto a compreender a importância de tanta dor em sua vida, de tantas ameaças que sente em seu ego, ou vive apenas seus dias a se julgar e a julgar sua vida? Você aproveita a tempestade que chega para se molhar e hidratar, ou passa os dias tentando se abrigar dela em suas justificativas, em suas expectativas de ser perfeito? Observe como tem vivido sua vida,  sua única vida. Talvez, você esteja fazendo de tudo para mudar coisas que não podem ser mudadas e deixando de mudar as que realmente estão ao seu alcance. Talvez esteja lutando para evitar o inevitável, sendo ingrato com a vida que tem por puro egoísmo de querer ter outra vida.

Sabe, se você estiver sofrendo, se estiver com medo do futuro, ou preso ao passado, sem saber o que fazer, não faça nada agora, não de imediato. Se sente que já fez de tudo o que poderia para mudar sua realidade e ela ainda continua a mesma, então, talvez não seja ela quem precisa ser mudada, certo? Deixe agora de tudo querer fazer e apenas aceite sua realidade de agora como a que você pode ter. É  sua vida, a que você teve a chance de ter, pra que a renegar?

Acalme-se das confusões da sua mente, tudo bem ela ser assim; sinta essas palavras entrando por todo seu ser. Eu estou aqui pra arrancar toda essa cobrança inútil  de você. E o farei como você  fez comigo, não fazendo nada, apenas esperando e aceitando tudo o que vida oferecer; estou aqui, aceitando junto com você:  os pensamentos, os medos, as fantasias, as perdas. Tudo é perfeitamente humano de se sentir.

Acalme-se, não faça nada agora, não há nada o que você possa fazer, nem com o que se preocupar. Parece impossível, mas, é só a vida acontecendo, acontece também comigo - é  só a chuva caindo, deixa cair, é só o medo de seu ego surgindo, deixa surgir, e quando a chuva passar, e quando o medo passar, você poderá perceber que  te ajudaram a caminhar, que também são sua coragem de viver.

Sinta a leveza de saber que tudo está bem agora. Apenas abaixe o volume da sua mente julgadora cheia de ruídos e escute o que sua dor no fundo está querendo te dizer com seu silêncio. É possível que ela esteja te pedindo pra aceitar, é possível que esteja te ensinando a perder, é possível que ela queria te acordar, despertar sua alma de uma ilusão criada por você. Vem a tempestade forte a te molhar, pra que a não ter medo dela você possa aprender, pra que você entenda que se não há mais nada o que fazer, está na hora de apenas começar a se aceitar, a se amar do jeito que você pode ser.

Se não houvessem tempestades em suas idas, em suas vindas sol não haveria de ter; se não houvessem medos em sua vida, não haveria sentido nenhum ter alegria em seu viver. Se não se sentisse desprotegido, jamais saberia a importância de se proteger, porém, caso se protegesse demais em sua vida, jamais nela poderia se arriscar a viver. É inteligente fazer algo por alguém e por você, mas, é sábio saber a hora em que nada se deve  fazer.

Ao menos que seja se aceitar e se amar pelo que você é sem tanto receio de ser, não faça nada agora, deixe a vida apenas acontecer. Se sente que não  pode fazer nada disso agora, apenas se permita nada ter que fazer. Nessa vida, já dizia meu velho pai: tudo tem a hora certa de acontecer.

quarta-feira, 8 de março de 2017